11/15/2005

Roberto Sierra

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¿Y por qué no Roberto Sierra?

Alumno de Ligeti, lo conocí precisamente por eso. Le invité hace tres años a participar en unas jornadas en homenaje al compositor húngaro organizadas en mi Universidad. Vino desde Ithaca -él es profesor en la Cornell University - y nos habló de su música, de su visión del mundo y, cómo no, de la relación con su maestro.

El viernes pasado fui a Valladolid para saludarlo, aprovechando que había vuelto a España para asistir a un concierto de la Orquesta Sinfónica de Castilla y León en el que el guitarrista Manuel Barrueco tocó sus Folias (2000).

Seguramente, alguien habrá a quien le parezca mal que su música sea comprensible. Yo, por mi parte, me quedo con la imaginación, la belleza, la ironía y con la alegría de vivir que revela. Y también con su esfuerzo por explorar, desde los Estados Unidos, sus raíces culturales a través de la creación. Que este esfuerzo no es tan inocuo como podría parecer queda claro cuando leemos las airadas reacciones que en España han provocado algunas de sus obras más "españolas", tales como los Fandangos para orquesta...

Bye bye Público

Fiquei entusiasmada quando, em Outubro de 1999, a Cristina Fernandes me telefonou para propor uma colaboração regular com o jornal Público. Desculpem a sinceridade (talvez deveria armar-me em profissional imperturbável e não confessar assim os meus entusiasmos neste blog...), mas acontece que o jornalismo tinha sido até então para mim uma espécie de aspiração privada (e também bastante romantizada).

Lembro-me com detalhe da minha primeira reunião com a Cristina e com a Alexandra Lucas Coelho (editora da secção de Cultura nessa altura) e o Alexandre Delgado (cuja ausência da crítica em Portugal é sentida com saudade por todos). E também lembro a minha primeira crítica, sobre um concerto de Marcel Pérès incluído nas saudosas Jornadas de Música Antiga da Gulbenkian, ao qual assisti com o também muito saudoso Orlando Pantera, entretanto falecido.


Foram seis anos óptimos, que me deram prazer e que agora deixo atrás sem lamentos. E com uma estranha e surpreendente sensação de liberdade recuperada.

11/04/2005

Desde España 2

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A propósito do recentemente inaugurado Palau de les Arts, em Valencia (projecto de Santiago Calatrava, na foto). Uma e duas opiniões optimistas e uma opinião... realista?

A sua intendente, Helga Schmidt, disse isto em entrevista a EL PAÍS:

R. Este año tenemos 12 millones. Para la temporada regular inicial de 2006-2007 aún lo tiene que aprobar el patronato. Evidentemente, necesitamos la contribución del Ministerio de Cultura. Esperamos una cifra similar a la del Liceo [la pasada temporada su presupuesto fue de 55 millones, el 37% aportado por el ministerio] o a la del Teatro Real [44 millones, el 70%]. Tenemos que crear público, ofrecemos el programa educativo y la orquesta que puede llevar la bandera valenciana y española al extranjero. Con la orquesta sin formar aún, sólo con el nombre de Lorin Maazel, nos han invitado para hacer una gira en América. La orquesta puede ser la embajadora de España en el mundo.

Isto:

R. La base de un teatro de ópera es la orquesta. Mi condición sine qua non era formar una orquesta de alta calidad y compartirla con otros teatros internacionales. España tiene una gran cultura de literatura, pintura, música (hay fantásticos compositores contemporáneos), pero no una gran orquesta internacional. Hay muchas orquestas que tocan muy bien, pero no hay una de gran renombre internacional. El Teatro Real tiene al maestro López Cobos, es un director internacional que nosotros queríamos como director musical del Palau. Pero pasaba el tiempo y no abríamos...

E isto:

R. Tengo un programa de ópera popular, otro de ópera más sofisticada y, raramente, de muy sofisticada. Me gusta mucho la música del siglo XX, pero también Mozart, Puccini o la música barroca. Me atrae la idea de ciclos temáticos. Poner a un compositor de una época, un país, e informar dos o tres semanas sobre el periodo histórico a través de la música, de lecturas, de exposiciones. En el Palau esto se puede hacer. La primera temporada vendrán Mehta, Barenboim y López Cobos con Plácido Domingo, que harán un espectáculo español. Se celebrará el concurso Operalia. Habrá repertorio valenciano con Martín y Soler, además de La Bohème, de Puccini, y un Don Giovanni que dirigirá Maazel. E insisto: se pondrá en marcha la academia, que formará a artistas y técnicos para crear una infraestructura valenciana.

Desde España 1

Uma conversa com Calixto Bieito, publicada em La Razón. Descontraída, mas com respostas pertinentes a algumas perguntas impertinentes. O pretexto é a encenação de Wozzeck para o Liceu.

En Ópera Actual, entrevistas a Carlos Mena, Darina Takova y Roberto Alagna (a deste este últimopor causa do CD que vai gravar dedicado a Luis Mariano: a tomar muito seriamente em muito alta consideração).

11/02/2005

I need a hero

«Queremos um grande profissional, com exigência conceptual. Uma espécie de José Mourinho que não vai aceitar qualquer proposta de trabalho. Tem que se uma pessoa que assuma responsabilidades e que se não cumprir os objectivos é despedida»

Lido aqui.

Sandra Medeiros como Serpina

Recebi agora por mail o anúncio da próxima montagem de "La Serva Padrona" no Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Acábio Barreiros). Eu estarei sentadinha a comer uma sandes num avião da TAP no momento em que a maravilhosa Sandra Medeiros estará a cantar em Sintra o papel de Serpina. Não se pode ter tudo na vida.

La Serva Padrona │ Ópera Buffa (Ópera Cómica)

12 de Novembro│ 16H00 │ Auditório Acácio Barreiros

La Serva Padrona [Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística, Curso de Encenação de Ópera] – Um Espectáculo ArtemRede

La Serva Padrona, de Giambattista Pergolesi, é uma das obras mais populares do repertório operático de todos os tempos e é também uma das mais influentes, uma vez que serviu de modelo a Jean-Jacques Rousseau na sua polémica contra a ópera lírica francesa (Querelle des Bouffons, 1720).

Ficha Artística e Técnica: Encenação - Carla Lopes; Direcção musical - João Paulo Santos; Luz - Clemente Cuba em colaboração com Carla Lopes; Direcção de cena - Otelo Lapa; Interpretação - Sandra Medeiros (soprano), Jorge Martins (barítono), Carlos Alves e João Lucena e Vale (pianista); Figurinos e cenografia - Cristiana Lopes; Guarda-roupa - Maria Gonzaga; Produção - Fundação Calouste Gulbenkian; Colaboração: Teatro Nacional de S. Carlos.

A música da época do terramoto

Um óptimo concerto, esta noite, na fantástica Igreja de São Domingos, em Lisboa. Com este programa. Foi retransmitido pela Antena 2.

À frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa, Jorge Matta. Um maestro que é musicólogo e que consegue reunir e transmitir o mais positivo de ambas as tarefas. E transmitir também o entusiasmo aos músicos e ao público.

Na quarta, o programa é repetido no Centro Cultural do Cartaxo às 21h30. Vale a pena ir pelo menos por duas razões: para descobrir a música que Jorge Matta fez reviver e também para escutar a soprano Sandra Medeiros.

Otello 3

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Otello 2

DESDEMONA
O, falsely, falsely murder'd!
EMILIA
Alas, what cry is that?
OTHELLO
That! what?
EMILIA
Out, and alas! that was my lady's voice.
Help! help, ho! help! O lady, speak again!
Sweet Desdemona! O sweet mistress, speak!
DESDEMONA
A guiltless death I die.
EMILIA
O, who hath done this deed?
DESDEMONA

Nobody; I myself. Farewell

Commend me to my kind lord: O, farewell!

Otello 1

Um cenário despido, cantores vestidos com calças de ganga, uma iluminação trabalhada... teria bastado isso.

Quando falei com ele, fiquei com a impressão de que Nicolas Joel menospreza Verdi. Confirmei-o na entrevista que também deu ao DN. Pois é. Para ele, Verdi é um provinciano.

Otello assassina o bem, a possibilidade do bem, não mata apenas à sua esposa. A ópera é ele. O drama é a sua destruição. Ou melhor, a sua corrupção, a sua queda no abraço do mal absoluto.

10/13/2005

Art Tatum Posted by Picasa

Coisas da hermenêutica

Hoje, no PÚBLICO, temos um pedagógico artigo de Amílcar Correia intitulado «A hermenêutica da Casa da Música» onde se conclui:

«O passado é a melhor prova de como a politização da administração daquele equipamento, e respectiva rivalidade com a direcção artística, tem sido a origem de episódios pouco edificantes, com o fantasma de Pedro Burmester sempre a pairar sobre a Casa da Música, como ficou patente na sua inauguração. O passado de Serralves também explica o êxito do presente. O seu sucesso não pode ser dissociado do perfil dos seus administradores e directores artísticos. Os três administradores daquela fundação (João Marques Pinto, Teresa Gouveia e Gomes de Pinho), nomeados pelo sector privado, destacaram-se pela angariação de mecenas e pelo respeito pela independência dos directores artísticos. E Vicent Todoli, demarcando-se da cidade e importando o cosmopolitismo que faltava a Serralves, transformou aquela fundação num sucesso a todos os níveis. E sem discussões de hermenêutica.»

8/20/2005

Light of the End

Hoy, a las 19h30, Kurt Masur dirigirá en los Proms una de las últimas obras de Sofia Gubaidulina: Light of the End (2003). Podrá ser escuchada aquí.

Buscando más información sobre la obra - que puede ser leída aquí, aquí y aquí - me he encontrado con esto.

Ya puestos, y sin salir del site del Guardian, se recomienda la lectura de esta magnífica pieza de 23.000 caracteres dedicada a Charles Mackerras, que irradia luz desde la sabiduría de sus 80 años.

8/17/2005

daalmaedequantotiver.blogspot.com

Atenção ao novo blog do Paulo Estereiro.

Podia ter-se chamado De bom gosto e de boa música.

Por cortesia da Antena 2

Encerrada em Agosto, trabalhando, é uma alegria poder fazer uma pausa para escutar, em directo do Royal Albert Hall, a Christine Schäfer cantar, com a sua voz quente e luminosa, “Wir geniessen die himmlische Freuden…”

Ultimamente, tem sido notório o esforço da parte da Antena 2 para se transformar numa emissora simpática, que acompanha e dá prazer sem, ao mesmo tempo, perder a sua missão pedagógica. Imaginem só: de repente, passei a ser ouvinte! Ainda bem.

Só faltam algumas coisitas: um livro de estilo, actualizar um pouco a biblioteca, dar mais importância à pesquisa musicológica. Digo eu que deve ser possível encontrar um ponto de equilíbrio entre a maçada histórica e o vácuo que tem como modelo a prosa da Hola.

Não sei, por exemplo, a propósito deste fantástico concerto: Orquestra Filarmónica Real e Royal Opera House no mesmo texto? Até demorei um bocadinho em perceber que se tratava da orquestra do Beecham…. (sim, o tal que dizia coisas tão engraçadas como esta: “A musicologist is a man who can read music but can't hear it”…)

E, já agora, ninguém se lembrou de ir buscar e comentar o texto que usou o Mahler na quarta sinfonia? Ou será que todos os ouvintes já o conhecem? Bom, talvez tenha passado antes de eu ter ligado. É que, conhecendo o seu significado, aquela ideia da obra cantar a infância “ingénua e perspicaz”, no mínimo, enriquece-se um bocadinho…

Ficámos, porém, a saber que o homem (Mahler, claro) foi para o divã do Freud por causa das suas desavenças conjugais (suas dele, de Mahler, claro).

8/14/2005

NY loves Bavouzet

Bela crítica a um belo recital de Jean-Efflam Bavouzet, um dos melhores músicos que passaram pela Festa da Música deste ano, publicada hoje no The New York Times.

Si ellos hubiesen tenido el blogger...

¿Es posible prever lo que será la música de mañana?

Respuesta de Félix Weingartner (Agosto, 1902).

La mejor respuesta a la pregunta nos será dada por las obras que tendrán el poder de ser modelos. Profetizar, o querer instruir al futuro, es perjudicial, en el sentido de que el hecho consumado aparece siempre de manera diferente a las previsiones hechas a partir del examen estético.

Lo que han producido los tres creadores del movimiento musical moderno, Berlioz, Liszt y Wagner, no me parece que se haya reconocido en su significación real. Las principales obras de Berlioz y Liszt son todavía mal comprendidas, y es necesario no perder de vista que la popularidad asombrosa de Wagner no se ha alcanzado gracias a su grandeza, sino a una cualidad propia de su música y por las concesiones que ha debido hacer, tal como ostros maestros, al efecto sensual. Escuchando sus melodías se palpita. Es necesario pues buscar el punto donde ha encontrado la oreja de la masa, incluso de la Moda, y es ese punto el que ha servido de punto de referencia a los compositores “modernos”. El enorme progreso de los medios de comunicación con sus ruidos enervantes, la necesidad de un trabajo rápido, casi jadeante, para poder mantenerse al mismo nivel que los otros, la manera malsana de vivir que implica, juntamente con otras particularidades de nuestra existencia actual son la causa de que una buena parte del público no se contente con distracciones inocentes, de elevación y entusiasmo, sino que pida la excitación de los nervios que, como el opio, produce una exaltación momentánea de las sensaciones que determina, seguidamente, un abatimiento más seguro. Si esta excitación nerviosa es a menudo producida por la música de Wagner, es en las obras más recientes lo único que actúa. Las obras de nuestros compositores modernos son embriagadoras, sosegadoras, embaladoras o brutales, casi jamás puras y bellas, y, no obstante, siempre sorprendentes, ya que nuestro público actual aprecia esa sensación, y sólo considera “originales” las obras que son “diferentes” de lo que ha escuchado con anterioridad. Lo que ha ganado así es un progreso extraordinario de la orquestación, que acompaña el perfeccionamiento de las invenciones técnicas. Al contrario, lo que ha perdido, es la arquitectura espléndida y moderada de las obras de los maestros antiguos que, incluso en la obra menos importante de Mozart, brilla ante nuestros ojos con un esplendor parecido al de las ruinas de un templo griego o de una obra maestra del Renacimiento. Con esto también se ha reducido el sentimiento de que las obras más antiguas, necesariamente, han salido del cerebro de sus creadores de una sola pieza, sin ser el fruto del trabajo. Mientras que los ruidos impresionistas de nuestra música de programa moderna podrían a menudo ser presentados de otra manera produciendo el mismo efecto y que, en suma, tal como en los rascacielos americanos, todo depende del número de pisos, de la misma manera aquí todo depende de la cantidad de rascadores de tubas y de sopladores de trompetas.

Lo que, en fin (y esto es lo más doloroso), se ha perdido en esta concesión, tanto consciente como inconsciente, al gusto moderno, es la nobleza de la distinción de las sensaciones, sin la cual la verdadera grandeza no existe. Si me permiten darle un consejo a los jóvenes compositores, es el momento de sacar la cabeza del amasijo de principios y de disertaciones artísticas amasados a través de la acumulación de opiniones, de dejar de lado durante algunos años los escritos de Wagner, de estudiar a fondo las obras de los maestros antiguos, de mirar sobre todo la vida de frente, y, sobre los trazos que dejan en el alma sus alegrías y sus dolores, hacer que nazcan las flores artísticas…

8/11/2005

Europa cada vez más lejos (también de España)

Un excelente artículo que deben leer quienes estén interesados en el futuro de las enseñanzas musicales en este cantiño de Europa Occidental.

Se eles tivessem tido o blogger...

Carlos de Mello, “A música em Portugal (I)”, O Dia, 19 de Março de 1902, p. 2.

O domínio da música está hoje em Portugal nas mãos de amadores, Este facto originalíssimo – e decerto único no mundo – importa uma descentralização muito grave e uma desorganização muito profunda, que não nos compete estudar nem discutir. Convém entretanto não o deixar no escuro, para que atentem nele os raros espíritos de eleição que ainda olham para as coisas portuguesas alheados d’el rei Dinheiro.

Orquestras portuguesas não existem, já que na composição das actuais mais da metade dos músicos – e que músicos! – são estrangeiros! Os nossos artistas de primeira ordem saíram de S. Carlos para formarem cá fora sextetos, onde vão honrando a Arte para não morrerem de fome; outros, bem poucos, ficaram no teatro nacional (?) lírico (?), nas segundas ou terceiras estantes dos primeiros lugares. Os mais estão nos teatros pequenos. Associação musical não existe, ou, se existe, não tuge nem muge. Há porém solidariedade artística, felizmente.

Essa solidariedade manifestou-se por forma brilhante no concerto do distinto violinista Cardona, no Conservatório, e no modo por que se organizaram o curso e a orquestra do Real Instituto. Preciso é, porém, que ela vá mais longe, e que se compenetre com inteligência, com energia e com desinteresse do elevado papel que lhe cabe na Arte, abandonando o processo das reclamações vocais e dos protestos platónicos, que de nada servem, para iniciar o restabelecimento do antigo espírito de classe, impondo-se por uma união sólida, escudada na competência artística e no patriotismo.

Apoio exterior, não existe. Os amadores opulentos, que eram amigos verdadeiros da música, desapareceram, e com eles as festas e saraus que davam. José Carlos O’Neill, visconde d’Oliveira Duarte e conde Daupias foram arrebatados ao culto da arte pela morte, invejosa do prestígio com que eles se iam imortalizando, e ciosa do encanto com que eles tornavam este mundo um paraíso. Os que ficaram e os que lhes sucederam trilham outras veredas em que a Música se não faz ouvir. Os governos não têm tido tempo de se ocuparem desta bela arte, como ela o merece, arrancando-a do descrédito em que ela caiu mercê do singular preconceito de que as belas artes são um luxo educativo!...

E assim ficam os professores do Conservatório de Lisboa, ganhando menos do que os amanuenses da sua própria escola, e menos do que os cozinheiros e porteiros de qualquer casa rica. O Porto continua sem Conservatório de Música. As câmaras municipais só não ousam subsidiar orquestras nacionais para concertos clássicos, E fazem bem, porque se têm concentrado, como toda a gente sabe, no desenvolvimento das obras e do pessoal da limpeza e da canalização do gás e dos esgotos, que estão por isto no estado perfeito e odorífero de todos conhecido.

Os particulares modestos, e só esses, continuaram porfiando. Rey Colaço, o pianista cada vez mais perfeito, prossegue intemeratamente no cultivo da Arte pura, apesar de ter a felicidade de ser professor no Conservatório com o ordenado que sabemos.

A elevação dos seus programas e a supremacia da sua execução nos concertos, colocam-no em primeiro lugar entre os beneméritos da Arte em Portugal. Fica bem ao lado dele, Bernardo Moreira de Sá, o prestigioso violinista que é a alma da vida musical no Porto, onde tem sabido implantar e generalizar o gosto, o respeito e o culto pela música clássica.

A Real Associação de Música não trepidou ainda no empenho nobilíssimo do seu programa inicial. E os seus concertos – em que talvez tenha entrado mais elemento estrangeiro do que seria mister – provam não só a competência dos seus sócios, mas também a elevação do ensino musical, que ela sustenta com os seus próprios fundos.

A Escola de Música de Câmara, que é uma associação de amadores com o título mal cabido, continua a série de esforços com que o sr. Miguel Ângelo Lambertini e os seus amigos têm forcejeado por levantar o nível da Arte em Portugal, quer facilitando generosamente a audição pública e gratuita de artistas e de quartetos nacionais e estrangeiros, quer tocando eles mesmos a música de câmara que lhes parece mais adequada.

Por outro lado, o sr. António Santos, o activo e enérgico empresário do Coliseu, inaugurou no ano passado a época lírica no Coliseu dos Recreios, facultando a preços cómodos a audição das óperas mais em voga, sem as importâncias de luxo de S. Carlos. Folgamos de registar o facto da sua preferência pelos artistas nacionais; e estimamos louvá-lo em breve pela sua protecção definitiva à Arte musical, dando lugar aos maestros portugueses – que ainda os temos – e às óperas portuguesas, que não valem menos que as estrangeiras.

Tais são as manifestações visíveis – visíveis pelo menos a quem chega de fora – quanto à música em Portugal, abstraindo das tunas, que apenas agora se formaram, e do teatro de S. Carlos, onde se representa o D. João de Mozart, como se viu há pouco…

Quais são as características desta situação anormal?

8/09/2005

No sólo de Bayreuth vive el hombre

Dentro de un rato, La Gazetta, ópera bufa de Rossini, en directo desde el Festival de Pesaro.

Se podrá escuchar aquí.

Mañana, tendremos a Juan Diego Flórez haciendo de Almaviva.

Bomba ideológica

Sempre me aborreceu o carisma auto satisfeito do Bono e nunca gostei da música dos U2. Pronto. Já disse.

Dediquei, há tempos, um post à personagem e, na sexta passada, fiquei com vontade de comentar uma notícia que saiu no PÚBLICO, na qual se anunciava que o Presidente da República Portuguesa tinha decidido condecorar o cantor irlandês. Não o fiz por preguiça (e porque julguei muito mais importante, por supuesto, que nesse mesmo dia, o crítico Augusto M. Seabra confesasse, no mesmo jornal, a sua íntima preocupação pelo estreitamento do espaço crítico em Portugal).


A propósito da condecoração pensei "bela maneira de arranjar uma borla para o concerto" e segui em frente. No mesmo dia, através do statcounter de um outro blog que por vezes actualizo, fui cair aqui e achei o máximo.

Hoje, para meu contentamento, descobri aqui que não estou sozinha no universo.
Maud Powell Posted by Picasa
Mme. Neruda Posted by Picasa
Camilla Urso Posted by Picasa

8/04/2005

Un futuro sem musicologia, talvez melhor

No Musicoblogo, o João alerta para o previsível desaparecimento da musicologia como título no primeiro ciclo do ensino universitário em Portugal.

Não gostei da frase final. Auto-flagelo? Não, obrigada.

Em Espanha já aconteceu. Nada a fazer. A corrente e os preconceitos ganham. Já não é de todo mau que se tenha pensado numa área de "Estudos Artísticos". Aqui, nem isso.

Uma forma de ver as coisas encontra-se neste artigo ("El futuro de la universidad pública": aparece en medio de la página), já recomendado neste blog.

Músicas em movimento

Hoje o PÚBLICO, na secção de cultura, refere e cita parcialmente um artigo intitulado «Músicas em movimento. Dos contextos, tempos e geografias da performance musical em Portugal», da autoria de Paula Abreu e publicado no número 70 da Revista Crítica de Ciencias Sociais (do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra).

Talvez teria sido mais interessante ter «ouvido» a voz da investigadora numa entrevista, mas, mesmo assim, vale a pena que se tenha chamado a atenção para o artigo, o qual vem no seguimento do projecto de investigação “Intermediários culturais, espaço público e cultura urbana. Estudo sobre a influência dos circuitos culturais globais em algumas cidades portuguesas”, financiado pela FCT e desenvolvido entre 1999 e 2002 por uma equipa do Núcleo de Estudos sobre Cidades e Culturas Urbanas, pertencente ao mencionado Centro.

Aqui está o índice do relatório final do dito projecto.

O meu pequeno mundo

Augusto M. Seabra anda a cismar no "estreitamento genérico do espaço público em Portugal, característica preocupante ao entendimento de uma sociedade liberal, com relativamente poucos ou pelos menos insuficientes sinais de renovação face à continuada repetição de um núcleo restrito de emissores de opinião".

8/01/2005

Karita

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Mi comentario para Mundo Clásico salió hace un mes y vi el espectáculo hace dos, pero, francamente, la sensanción de encantamiento dura hasta hoy. Me parece que mi vecino en la blogosfera, il dissoluto punito, me entenderá.

El toque Lubitsch

Supongo que, aunque cada cual ha de tener sus propias razones para querer vivir en París, una de las que compartirán los lectores de Mundoclásico.com es la programación operística del Théâtre du Châtelet. La temporada 2004/5 todavía no ha acabado: está actualmente en cartel Medea, de Cherubini, y, el próximo 1 de julio, se estrenará un nuevo montaje de La Rondine, de Puccini, coproducción del teatro parisiense con Convent Garden que será protagonizada por Angela Gheorghiu. Pero es que, al echar un vistazo a la próxima temporada operística, lo que entra es un deseo irrefrenable de mudarse allí.

Y, si no, vean: un Anillo completo; Boris Godunov e Il Viaggio a Reims bajo la batuta de Gergiev; Franz Welter-Möst dirigiendo Fierabrás, de Schubert; y, en versión de concierto, Tamerlano y Alcina, de Handel, dirigidas por Christophe Rousset; El castillo de Barba Azul en la versión de Boulez; la reposición de L’amour de loin, de Saariaho...

De presencia habitual en el Châtelet, Karita Mattila regresa a ese teatro la próxima temporada para meterse una vez más en la piel de 'Leonora'. Me imagino que lo hará con placer, porque su última aparición en ese escenario – el pasado día 28 como Arabella, la cual, en realidad, el objeto de esta crítica – tuvo una recepción entusiasmada por parte del público. Sabiendo previamente de qué se trataba, porque el montaje era una reposición de 2002 y con un reparto de antología, la sala llenó.

De hecho, la puesta en escena de Peter Mussbach y la interpretación de Mattila (Arabella), Thomas Hampson (Mandryka) y , Barbara Bonney (Zdenka) fueron reseñadas en su momento en las páginas de Mundoclásico.com. No obstante, al leer esas críticas y compararlas con las que todavía se encuentran en la net de las sus sucesivas reposiciones de este montaje, es sorprendente descubrir que todavía es posible escribir nuevas cosas a su respecto. Mussbach sitúa la acción en un hotel art déco que funciona como referente de todo el siglo XX y de cualquier espacio urbano de tránsito: el vestíbulo de un gran hotel, claro está, pero también un centro comercial, un aeropuerto, una macrodiscoteca, unos grandes almacenes, un metro... Las referencias son explicitadas con numerosas fotografías en blanco y negro que se incluyen en el magnífico libro de sala, donde encontramos el metro londinense en los años 30 al lado de un centro comercial de los años 90...

Por eso, además, no parece descabellado que este montaje haga recordar también el cine de los años 30 en el que aparecen elementos típicos del referido estilo decorativo. Pensemos, como ejemplo, en algunas películas de Lang y Lubitsch o en los aparatosos musicales americanos de la época de la gran depresión. La referencia específica a Lubitsch en el título de esta crónica (que, en realidad, debería haber sido “Soy fan de Mattila”...) no significa, sin embargo, que ese realizador aparezca como una referencia inequívoca en la puesta en escena de Mussbach. No obstante, aquí también vemos puertas que se abren y se cierran, así como los pasillos y escaleras que tanto apreciaba el director alemán. Además, y sobre todo, lo que encontramos es la misma capacidad de transgredir lo que, en superficie, parece una dulzona comedia, con un toque de perversidad que, sin embargo, no deja de ser amable y cínica a la vez: parafraseando a Hofmannsthal, el talento para hacernos ver “las cosas como son”. Por supuesto, Mussbach juega con lo que Hofmannsthal y Strauss le ponen en bandeja, pero, tratándose de una puesta en escena, su aprovechamiento es un mérito que hay que tener en cuenta.

El segundo acto, por ejemplo, comienza con un momento, como se dice habitualmente, de película. Abre con el primer encuentro de Arabella y Mandryka en escena, ambos en la parte superior del decorado, pero separados por el “abismo” de una escalera. La música de Strauss, por supuesto, más la presencia de Karita Mattila y de Thomas Hampson sumada a una iluminación ejemplar provocaron la admirada respuesta del público, que no consiguió reprimir un oh encantado. La tensión entre identificación y distanciamiento se subraya sin embargo después, en el mismo acto, con la presencia de Milli, del coro y de figurantes vestidos alla hip-hop en la fiesta donde Arabella se despide de su juventud (y de sus pretendientes) antes de lanzarse al serio matrimonio con el no menos serio e imponente Mandryka. Por supuesto, otro de los méritos de Mussbach está en su impecable dirección de actores, como se podrá comprobar en el DVD (con el montaje de 2002), cuyo lanzamiento está previsto para breve.

Vocal y dramáticamente, la representación tuvo un nivel absolutamente excepcional. No tuve la mala suerte de quienes, en representaciones anteriores, tuvieron que conformarse viendo a Barbara Bonney “doblada” por otra cantante debido a un resfriado. Así que disfruté del trío protagonista, inmejorable como era de esperar, y del resto de los cantantes, a propósito de cuya actuación sólo se podrían escribir elogios. El placer fue, de resto, compartido por todos los presentes que acabaron aplaudiendo y ovacionando en pie al final de la representación. Infelizmente, la indisposición de Christoph von Dohnányi sí me privó de disfrutar en vivo de la dirección de uno de los más reputados especialistas actuales de la música de Strauss. Fue sustituido a última hora por Günter Neuhold, que cumplió con dignidad la espinosa tarea al frente de una orquesta maravillosa, la Philharmonia Orchestra, que suena siempre bien (sospecho que incluso independientemente de quien la dirija).

27.06.2005

7/28/2005

Perplexidades e quixotadas

Teófilo Braga considerava os centenários “sínteses afectivas das sociedades modernas”. Lembrei-me disso ao constatar o papel que têm tido os afectos na reacção provocada pela extinção do Ballet Gulbenkian. Fora as tomadas de posição que revelam alguma forma de aproveitamento político, o certo é que a resposta mais generalizada tem sido visceral e apaixonada. Não sei explicar isto.

Faz-me lembrar à impressionante movimentação que se associou em Portugal ao processo de independência de Timor e que nada teve em comum com as manifestações colectivas que eu tenho visto em Espanha. Estas, apesar de tudo, tem sido sempre provocadas por causas bastante menos “quixotescas”, tais como o repúdio ao terrorismo da ETA ou à guerra do Iraque. O “nuestro” Timor (o Sáhara) está “obliterado” das nossas preocupações colectivas, pelo menos nas suas manifestações mais espectaculares.

Porém, acho curioso, por exemplo, que o indigno fim do apoio da PT aos Concertos em Órbita não tenha provocado uma reacção análoga (alguém sabe onde é que pára agora essa graciosa verba mecenática?). Ou que tenhamos engolido tão discretamente a extinção da Orquestra Regional das Beiras e, há mais tempo, o desaparecimento do Festival dos Capuchos. Já agora, e o Museu prometido para 2003 pela Fundação Oriente? Mas, pronto, não interessa. Não pretendo – ¡Dios me libre! – julgar a moralidade destas coisas. Adiante.

Tem-se rememorado também o fim dos Encontros de Música Contemporânea e das Jornadas de Música Antiga, as quais, de facto, foram integradas na temporada de música da Fundação. Mas não tenho lido nenhuma referência ao interessante, leve e eficiente modelo de intervenção cultural (e social) desenvolvido pela delegação da Gulbenkian em Londres.

Tem-me surpreendido também, nestes dias, a recorrente invocação da palavra “património”, misturada com a descrição do Ballet Gulbenkian como uma companhia de “repertório contemporâneo”. Património? Repertório? Contemporâneo? Importam-se de repetir? É claro que percebo o seu uso e as suas significações, que não são, por isso, menos reveladores...

Há dois ou três anos, escrevi no Público um texto de comentário sobre uma temporada Gulbenkian de música. A palavra que eu utilizei então para descrever a situação do Serviço de Música foi “encruzilhada”. Aí também frisei que o ideal de excelência cultural herdeiro da época de Thomas Mann já não faz sentido no século XXI.

Quase diria que estamos perante mais um episódio da agonia do papel das elites fidalgas e afidalgadas no âmbito da cultura. Isto poderia explicar, pelo menos em parte, a reacção. Será que a preocupação pelo "social" irrompeu, finalmente e sem ser confundida com caridade, na, de resto, imprescindível intervençao artística da Gulbenkian?

Nota: sinto a necessidade de fazer constar que todas estas minhas dúvidas não são incompatíveis com o meu profundo respeito pela filantropia privada e, portanto, pelas decisões que nesse domínio são tomadas.

7/27/2005

O Ballet Gulbenkian na blogosfera

Uma opinião autorizada.

Uma visão liberal em dois números: um e dois.

Um amargo comentário anónimo.

O medo deles.

É o dinheiro, estúpido!

Em defesa de Rui Vilar.

Há quem prefira «orquídeas amarelo-rosa em todas as janelas impar de prédios que tenham entre 4 e 8 andares e onde more uma rapariga chamada Maria Inês». E há também activistas.

A ironia vai mais longe.

Mais indícios preocupantes.

Uma perspectiva comparativista.

Um mail aberto para a ministra.

Absurdo 1. Absurdo 2.

Pedrito o fantástico.

Domingo, no Teatro Camões

«A Mayra Becker, a São Castro, a Mónica Gomes, a Barbara Griggi, a Sofia Inácio, a Wubkje Kuindersma, a Laura Marín, a Daniela Neugebauer, a Cláudia Nóvoa, a Ana Cláudia Ribeiro, a Sylvia Rijmer, a Iolanda Rodrigues, a Sandra Rosado, a Ana Sendas, a Teresa Alves da Silva, a Ann De Vos, a Lindanor Xavier, o Jordi Alguacil, o Allan Falieri, o Bernardo Gama, o Bruno Guilloré, o Hillel Kogan, o Danilo Mazzotta, o Pedro Mendes, o Carlos Prado, o Rui Reis, o Romeu Runa, o Jermaine Maurice Spivey e o Rodrigo Vieira, reunir-se-ão por uma última vez em palco, no próximo domingo dia 31 de Julho, pelas 19h00, no Teatro Camões.

Gozarão o prazer de estarem juntos em palco, fazendo com paixão aquilo que mais gostam e melhor sabem: DANÇAR! Com esta oportunidade pretendem, uma vez mais, transmitir, a todos os que a eles se queiram juntar, esse sonho de se exprimirem com movimento, sensações capazes de despertar no corpo de todos nós viagens sem fim…

Mauro Bigonzetti, coreógrafo de Cantata, e todos os seus co-autores, ofereceram os direitos para que esta obra seja, de novo, apresentada. O complemento será servido com uma pequena surpresa que contará com a presença ao vivo dos Danças Ocultas.

As entradas gratuitas serão distribuídas no Teatro Camões, no domingo, dia 31 de Julho, a partir das 15h00.»

Nota: mensagem enviada por João Costa

5/23/2005

Dois anos depois, partir para outra

O Henrique, após dois anos de experiência blogosférica, decidiu fazer algumas mudanças na orientação do seu blog.

Percebo, mas também tenho pena, porque ele fez da música, nestes anos, um assunto polémico e, portanto, vivo, o que não é pouco.

5/18/2005

Wheel of Emptiness


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Passei o dia todo a ler e a escrever palavras que falavam de música e agora, depois de voltar a escutar este CD, só consigo articular estas: escutem porque vale a pena.

5/17/2005

Faleceu Fernando Magalhães

Foi noticiado ontem o falecimento de Fernando Magalhães, jornalista do PÚBLICO desde a fundação do jornal. Especialista em música, os seus artigos foram ao longo de toda a sua carreira exemplo de crítica esclarecida, de gosto pela descoberta e de boa disposição.

A sua ausência far-se-á sentir.

Correr o risco de inaugurar com uma estreia

O novo teatro de ópera de Copenhaga fez uma espécie de dupla inauguração.

Primeiro, há algumas semanas, apresentou a ópera Aida, de Verdi. Nestes dias está a fazer a sua «verdadeira» estreia com uma nova obra de Poul Ruders, encomendada para o efeito e baseada no Processo, de Kafka.

As críticas, porém, tem sido bastante pouco entusiastas. Podem confirmá-lo aqui, aqui, e aqui.

5/16/2005

Requiem Survey

Um site que, inexplicavelmente, desconhecia e cuja visita se recomenda. Há referências - bem entusiastas, de resto - a diversas obras de compositores portugueses, entre os quais Lopes-Graça.

Mais do mesmo

Lido no NY Times:

«You have to admire the Met's willingness to add this curiosity [Cyrano de Bergerac, ópera em quatro actos de Franco Alfano] to its repertory. Still, the company has yet to present any opera by Michael Tippett, Hans Werner Henze, Olivier Messiaen or several other 20th-century giants. Lucky Alfano has Mr. Domingo pushing for him.»

Em 1936, Alfano recusou-se a assinar o «Manifesto di musicisti italiani per la tradizione dell'arte romantica degl'Ottocento», mas a sua ligação com o fascismo está documentada a partir de 1923.

5/15/2005

Representativo

Mário Mesquita, no PÚBLICO de hoje, começa a sua coluna dominical com a seguinte frase: «A vantagem de quem não pertence à categoria dos guardiões do panteão literário, que chamam a si a gloriosa tarefa passar certificados de imortalidade, é a possibilidade de escolher caprichosamente as leituras, sem demasiada preocupação com o destino que a comum opinião de doutos e menos doutos - ou tão-só dos que controlam os aparelhos de difusão da cultura (mediáticos e escolares) - reservará aos respectivos autores.»

Há dias, desde o fabuloso concerto que os Takács ofereceram no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, que estou a pensar na questão do «representativo» na música, de resto no seguimento das leituras sobre historiografia que ando a fazer ultimamente por causa do projecto docente que em Espanha é requerido para avançar na carreira universitária. O quarteto incluiu no programa três obras «representativas» do género e de três períodos da história da música, da autoria, respectivamente, de Haydn, Borodin e Beethoven.

O que interessa não é apenas a análise do papel assumido pelos «guardiões da história» desde o século XIX, do seu surgimento como mediadores institucionalizados e das metamorfoses da sua função até ao século XX, mas também as amplas consequências da adaptação da história, especificamente da história das artes, ao paradigma da cientificidade, fundamentada do ponto de vista teórico em dois conceitos principais: período e estilo, que, por sua vez, usam como ferramenta legitimadora principal a ideia de «representatividade». É óbvio que não estou apenas a pensar na relação com a realidade (um quadro que representa tal «coisa» do mundo sensível), mas na ideia de que uma obra ou um autor possam conter ou sintetizar valores, o «espírito do seu tempo» (ou da sua classe, ou de uma ideologia, ou de uma corrente estética...) e da função que, subsequentemente, assumem as palavras que objectivam essa representatividade no exercício efectivo do poder.

Claro que isto não é, de todo, novo. Como sabem, há décadas que Michel Foucault pensou esta questão. Veja-se, também, como casos aplicados, o impressionante Representative words: politics, literatura and the american language, de Thomas Gustafson. E, no que diz respeito à inevitável presença do elitismo não-democrático na democracia representativa, The Principles of Representative Government, de Bernard Manin. Por acaso, ou talvez não, os dois livros foram publicados pela Cambridge University Press. Do segundo há tradução espanhola, publicada na Alianza Editorial, mas não sei se está traduzido em português.

Já agora, e como estamos a falar de exercícios de poder, é significativo que Mário Mesquita tenha omitido (ou esquecido, pouco importa) na sua classificação dos «aparelhos de difusão da cultura» o adjectivo universitário.

5/12/2005

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A legalidade das redes P2P como causa

No passado dia 4, Jorge Cortell defendeu em público, numa palestra, a legalidade das redes P2P em Espanha. O interesse da sua história é que, dias antes, enviou um fax para várias instituições (polícia, sociedade de autores espanhola...) anunciando esta intenção. Nos últimos dias, tem vindo a dramatizar no seu blogue, clicar aqui, os preparativos e desenvolvimentos posteriores à sua façanha, obtendo um sucesso que pode ser avaliado pelo seu eco na blogosfera.

A polícia não o prendeu, mas a sua iniciativa mecheu com a casposería cañí lá do sítio (puedo permitirme estas cosas cuando escribo sobre vuestros hermanos, es a lo que lleva el exceso de confianza...). O reitor da Universidade Politécnica de Valencia boicotou a conferência e, depois, mandou-o embora: pelos vistos, foi fulminantemente despedido do «master» onde colaborava (oferecido pela referida universidad).

5/09/2005

Lyon e Paris descobrem Janacek

Vejam como aqui.

Adeus B. Leza

Soube agora, pelo Plasticina, que o B. Leza está prestes a fechar.

Sempre me admirou o reduzido impacto que a cultura africana parece ter em Portugal. Pelo menos essa é a impressão que tenho, embora nunca tenha pensado seriamente no assunto.

Algumas cicatrizes são difíceis de sarar.

The Long Tail

Um artigo imprescindível, lembrado na sexta-feira passada no blog de Enrique Dans (também ele, imprescindível).

5/08/2005

Perceber o cinzento

Neste fim de semana de exaltação órffica, julgo que é útil pôr aqui o link para uma interessante recensão da autoria de David B. Dennis, feita a propósito de um artigo de Michael H. Kater dedicado às relações de Carl Orff com o nazismo. Para complicar as coisas, cabe referir que o citado Kurt Huber - musicólogo e instigador do movimento de resistência A Rosa Branca - sim foi membro do partido nazi, onde ingressou em 1940.

O pecado dos Carmina Burana já tinha sido denunciado no Blogue de Esquerda no Natal passado, sob o mote do "triunfo da amnésia". De resto, Leon Botstein, em 1999, já tinha colocado a questão nos seguintes termos: «And will the political significance of modernism in the 1920s and 1930s - its role as an anti-Fascist aesthetics - be forgotten as future generations continue to delight in Carl Orff's Carmina Burana without any recognition of its troubling provenance as affirmative art in the service of radical evil?»

Vem também a calhar a referência, na coluna de Helena Matos no PÚBLICO de ontem, à publicação, em Chile, do livro Salvador Allende: Antisemitismo y Eutanasia, da autoria do filósofo Víctor Faria. Podem ler aqui um arrepiante comentário, publicado num jornal chileno no passado mês de Abril, e, aqui, uma mostra do uso do livro e da subsequente polémica como arma de demolição ideológica por parte de um jornal liberal espanhol.

Erich Kahn na Colecção Berardo

Posted by Hello


Este CD, editado pela Channel Classics em 1991, pode ser comprado na net - claro - e também no vestíbulo do Museu de Arte Moderna de Sintra. Acontece que, até Outubro próximo, decorre nesse museu uma exposição centrada na obra de Erich Kahn, "Judeu Sobrevivente - Expressionista Alemão". Uma boa parte do arquivo do pintor foi recentemente adquirido para integrar a Colecção Berardo e esta é, portanto, a primeira vez que a sua obra é apresentada em Portugal.

Ainda estou sob o efeito da visita à exposição (feita, de facto, de quatro exposições que se complementam). Custa resumi-la em três palavras, até acho que vou precisar de lá voltar, mas não custa, de todo, recomendá-la vivamente.

5/07/2005

O verdadeiro culpado

Hoje estou com um ataque agudo de bloguite. Mas, se nestes dias não tenho escrito aqui nada, a culpa não foi apenas do trabalho, [que me cura de todo mal e que também me faz pensar em coisas chatas e pouco bloguíticas].

Amanhã, na Pública poderão ler uma entrevista com o verdadeiro culpado: Javier Marías, de quem decidi ler este ano a obra completa. Acabo de saber disso no "Mil Folhas" de hoje, onde é comentado o recente lançamento em Portugal do primeiro volume de Tu rostro mañana, da sua autoria.

Lorin Maazel, compositor estreante

Duas críticas péssimas de The Guardian e The NY Times a propósito da primeira ópera de Lorin Maazel, estreada esta semana na ROH, em Covent Garden. A do Times também não foi simpática. O crítico do Telegraph foi o mais benévolo.

No seu blog, Jessica Duchen, no passado dia 4, colocou a "questão" da ópera de Maazel num contexto diferente, mas um outro crítico de The Independent (onde ela colabora), apesar das três estrelinhas que lhe deu, também não parece ter saído muito contente do espectáculo.

A revolução pós-modernista

Lido (e reproduzido aqui sem a devida vénia, mas espero que ninguém leve a mal) no óptimo Bajja, como comentário suscitado por um lúcido manifesto de César Viana em favor da criatividade:

Um revolucionário pós-modernista said...

O que nós - aqueles que pensamos ter algo a dizer sobre o assunto, perdoem-me a arrogância - temos de fazer é "apenas" movermo-nos de forma a contribuir - nem que seja milimétricamente - para a alteração do estado das coisas.
A arte, desde sempre, precisou de patrocínio. Ponto final. A arte não é essencial. Aceitemos isso. E portanto, é uma actividade absolutamente magnífica e que em muito contribui para o cumprimento dos estádios mais elevados da condição humana, claro, mas que depende essencialmente de estarem cumpridas as condicões primárias de subsistência do ser humano para que haja sequer a hipótese de a sociedade aceitar a inevitabilidade da sua existência. Dito isto, penso que decorre daí que, no mundo economicista que nos rege hoje - que não é o de Maecenas, apesar da figura patética do mecenato que se foi buscar...- é absolutamente necessário que os artistas em vez de "pedincharem" apoios se afirmem na sociedade civil, seja acedendo aos postos que lhes dão poder, seja afirmando-se nos meios académicos, seja atirando à cara da sociedade a irrecusabilidade dos seus projectos artísticos. Meus caros, tomemos o poder! Lutemos nas instâncias próprias - aquelas que possuem o poder de decisão. No mundo actual, em que o euro/dollar é que dita o destino, os artistas têm de fazer a revolução por dentro do sistema. Morram os burocratas da cultura, Pim; Morram os políticos desinformados, Pim; Morram os programadores dos compadrios, Pim; Morram os educadores instalados, Pim!

Una questão tola

Escutei há pouco a entrevista dada à TSF pelo brilhante Mariano Gago. Estava ele a alertar para os graves desafios com os quais se defronta hoje o ensino superior português - a concorrência internacional, o elevado número de adultos que não frequentam a formação permanente... - quando o jornalista que a conduzia se lembrou de lhe fazer uma pergunta a propósito das propinas.

O ministro reagiu logo: esse tema nem sequer está na agenda, o ensino superior português debate-se com problemas gravíssimos, estando em causa a possiblidade real do país permanecer numa situação de subdesenvolvimento irreversível... E o convencido jornalista, enquanto o ministro tentava colocar o debate na perspectiva certa, teimou e teimou, defendendo a pertinência da sua tola questão. Tola, em termos absolutos e ainda mais tola no contexto do processo de Bolonha.

Pensei para os meus botões: olha um adulto que precisa de reciclagem urgente. Depois, porém, atacou-me a virose do fatalismo. Quod natura non dat, Salamantica non praestat.

5/06/2005

Mais sobre o EEES

Mais um artigo sobre o debate em torno do EEES em Espanha.

Não é de opinião, mas lembra os pontos principais da discussão.

5/05/2005

EEES

Clicar aqui para ficar a conhecer uma fria visão do processo de implantação do Espaço Europeu de Educação Superior. A leitura recomenda-se, sobretudo àqueles que estão profissionalmente ligados às humanidades.

Outros textos do mesmo autor: aqui e aqui (este último a propósito da situação particular da filosofia neste processo).

4/26/2005

Congresso Centenário Lopes-Graça

O ARTISTA COMO INTELECTUAL: No centenário de Fernando Lopes-Graça

Coimbra, 27 – 29 de Abril de 2006

Congresso Internacional organizado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra/Grupo de Investigação sobre Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais

APRESENTAÇÃO

O compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994) é uma figura incontornável da cultura portuguesa do século XX. Como compositor, pianista, pedagogo, crítico, ensaísta e, ainda, como organizador de eventos musicais e estudioso da música tradicional portuguesa marcou de forma determinante a actividade musical em Portugal. Fernando Lopes-Graça partiu de premissas estéticas modernistas. Os acontecimentos históricos das décadas de 30 e 40 inscreveram os propósitos modernistas numa consciência social mais aguda e definiram uma posição política clara (foi militante do Partido Comunista Português) e muito interveniente num plano cívico. Assim, Fernando Lopes-Graça deu uma forma peculiar às relações entre as correntes modernistas, a recuperação da tradição e o envolvimento político activo.

Por isso, pretende-se a inserção da sua personalidade, da sua obra e da sua intervenção nos vários contextos a que pertenceu. Uma reflexão em torno de alguns conceitos fundamentais nos discursos artísticos contemporâneos de Lopes-Graça, - nomeadamente em Portugal e no Brasil, mas também em França, o país onde o compositor encontrou algumas das suas principais referências culturais – poderão ser de grande utilidade para a compreensão aprofundada da sua obra.

OBJECTIVOS

O Congresso tem os seguintes objectivos: 1. aprofundar o conhecimento da obra musical, da reflexão teórica e da actividade crítica de Fernando Lopes-Graça; 2. proporcionar um intercâmbio de pesquisas que, numa óptica interdisciplinar, produzam conhecimento novo sobre correntes artísticas e movimentos intelectuais a que Fernando Lopes-Graça se tenha associado; 3. estudar o modo de envolvimento de Fernando Lopes-Graça com movimentos e figuras internacionais.

ÁREAS TEMÁTICAS

O CEIS20 / Grupo de investigação sobre “Correntes artísticas e movimentos intelectuais” convida os investigadores a participar neste Congresso e propõe que as comunicações se situem numa das seguintes áreas temáticas:

1. O artista como intelectual no século XX.

2. O modernismo e as suas definições.

3. Recepção do cânone modernista.

4. Arte erudita vs. «indústria» cultural

5. A tradição e o moderno nos movimentos artísticos e nas concepções estéticas do século XX.

6. Arte e comunismo.

7. Os compositores do «moderate mainstream» (Arnold Whitall) entre ca. 1945 e 1975 e o problema da «inovação».

8. As organizações promovidas por compositores entre ca. 1945 e 1975 e o seu significado político (publicações periódicas, grupos corais, séries de concertos, etc).

9. Usos e significados da música tradicional, da literatura e da forma sonata na composição.

Outras áreas temáticas poderão ser também consideradas, sempre que relacionadas com a figura do compositor.

CONFERENCISTAS CONFIRMADOS

Estão já confirmadas as seguintes presenças: Professora Doutora Jane F. Fulcher (Indiana University), Professor Doutor Michael Walter (Institut für Musikwissenschaft, Karl Franzens Universität Graz), Professor Doutor Rui Vieira Nery (Universidade de Évora)

APRESENTAÇÃO DE COMUNICAÇÕES

As propostas deverão ser enviadas, antes do 31 de Julho de 2005, para o seguinte endereço electrónico: teresa.cascudo@dea.unirioja.es. As comunicações não deverão exceder vinte (20) minutos. Os “abstracts”, com o correspondente título, não deverão ultrapassar as 200 palavras. Deve ser identificada a área temática de cada comunicação. Aceitam-se propostas em Português, em Francês e em Inglês, que serão as línguas do congresso. A indicação de aceitação será feita até 30 de Outubro de 2005.

Coordenação científica: Teresa Cascudo (CEIS20/Universidad de La Rioja), António Pedro Pita (CEIS20/Universidade de Coimbra), Maria de São José Côrte-Real (PhD Columbia University).

Sinais de vida

Ainda sob a impressão da Festa da Música, ando com tanta coisa urgente por acabar que não estou com tempo para escrever no blog. É particularmente irritante porque há algumas coisas que me apetecia comentar. Paciência.

Assim, para, pelo menos, ir dando sinais de vida, vou ficar pela colagem - no seguinte post - do call for papers do congresso dedicado a Lopes-Graça que vamos organizar no CEIS 20 em Abril de 2006.

Estão convidados. Por supuesto!

4/22/2005

Retratos da Festa da Música

Paulo Gaio Lima, sereno e discreto. Admira e aprecia a «vontade de escutar» que têm as pessoas que acorrem à Festa. Lamenta-se do facto de, nos últimos vinte anos, se ter perdido em Lisboa essa qualidade de escuta, que ainda é possível encontrar noutras paragens. Por exemplo, na Turquia. Ali diz ter tido recentemente uma excelente experiência, tocando perante um público empenhado, atento, com as orelhas bem abertas... Ele consegue gerir bem a tensão de tocar ao vivo. Mesmo assim, diz que por vezes sempre fica preocupado até ao momento em que há qualquer passagem que corre menos bem: até que finalmente, agora é que posso continuar a tocar descansado.

François-Frédéric Guy, angustiado. Para este jovem pianista, ainda não foi possível atingir o equilíbrio: como conciliar um desenvolvimento criativo e individual com as necessidades diárias? manter o prazer pelo piano quando se tem contas para pagar, quando não se pode parar por isso? Tocar piano também pode ser uma prisão, sobretudo quando se imagina que apenas é possível fazer isso na vida.

Frank Brealey, pragmático. «Tocar piano é como o casamento. A única diferença é, que, no caso de um casamento não correr bem, é sempre possível tentar com um outro parceiro.»

Jean-Efflam Bavouzet, apaixonado. «Confusão? Qual confusão? É uma aventura.» Há doze anos teve um problema grave na mão direita e esteve quase para abandonar o piano. Não o fez e não se arrepende: «tenho a grande sorte de fazer aquilo de que mais gosto e de ganhar a vida com isso.» Para ele, é possível afirmar que o seu trabalho é também a procura do absoluto, que, por vezes não sabe se é ele a tocar o piano o de se o piano é que está a tocar com ele. Fidelidade absoluta à partitura, fazer com que o compositor se sinta satisfeito. Imaginar que Beethoven, se pudesse escutar a sua interpretação, ficaria contente. Com Boulez aprendeu a interpretar Beethoven, com Stockhausen, Schumann, e com Ohana, Ravel.

Na Festa da Música

Cheguei ao CCB por volta das 11 horas. É surpreendente que, mesmo quase sem público, o ambiente já parecia electrificado no interior do edifício. A primeira imagem é a de João Almeida, do cimo da sua estatura, falando ao telemóvel, e fazendo as vezes de regente do primeiro directo com o qual a Antena 2 fez a sua abertura da Festa. Eu, que participei nele, não posso perceber como é que ninguém consegue manter a cabeça no seu sítio nessas circunstâncias: conversa com cinco pessoas, mais dois jornalistas destacados em outros pontos do CCB e, ainda, pequenas peças previamente gravadas, todos a serem coordenados durante um período mínimo de tempo (mínimo quando comparado com a "durée" ligada à experiência da escrita, a que estou a ter agora, da qual gosto mais). É admirável.

É também admirável observar o entusiasmo com o qual os meios de comunicação colaboram neste acontecimento. Sou suspeita e, obviamente. Só posso ter uma visão parcial disto. É bom poder destacar qualquer coisa diferente dos impostos, das quezílias partidárias, da ameaça de produtos cancerígenos ocultos em frascos e bisnagas que se nos oferecem, aparentemente inofensivos, nas prateleiras dos supermercados.

E é também bom poder escutar a Sinfonia em dó menor, de Beethoven, ao vivo. Mais uma vez. Mil vezes. Elitista? Eurocentrista? Escapista? Pois é. E então?

4/21/2005

13º Encontro de Musicologia (Lisboa)

A Associação Portuguesa de Ciências Musicais (APCM) organiza, nos próximos dias 21 e 22 de Outubro, o 13º Encontro de Musicologia, sujeito ao tema "Os espaços da Música".

Com a escolha deste tema, a APCM pretende promover a investigação e a discussão em torno da ideia de espacialidade sonora e simbólica, quer ao nível da arquitectura e do urbanismo, das consequências da experiência sonora de grupos, quer ao nível das delimitações de espaços e geografias culturais ou individuais através da música. Em simultâneo com a apresentação e discussão de dados, será promovido o debate em torno de aspectos de ordem teórica e conceptual. Em particular, deverão ser postos em relevo os processos que determinaram o uso da música enquanto estabelecimento de delimitações espaciais, sociais e culturais ao longo de séculos. O espaço enquanto traço característico de linguagens musicais, a arquitectura e ideias sobre urbanismo serão igualmente aspectos de relevo a desenvolver, quer no quadro de referências de Portugal, quer no contexto internacional.

O conjunto de sub-temas poderá incluir, entre outros:

- A música nos espaços urbanos.
- A criação de espaços virtuais através da audição.
- As geografias musicais em várias regiões do mundo.
- A música como instrumento para a delimitação e caracterização de espaços públicos.
- As paisagens sonoras.
- Os limites sonoros do público e do privado.
- Personalidades e instituições marcantes para a circulação internacional de ideias.
- A circulação de objectos sonoros e a prática musical.
- Movimentos sociais e o uso da música.
- O nacionalismo musical em Portugal.
- Lisboa, cidade musical.

As propostas de comunicações (vinte minutos) terão uma dimensão máxima de 200 palavras. Devem ser enviadas para apreciação à comissão organizadora até ao dia 15 de Junho de 2005.

Contacto: apcm@fcs.unl.pt

Comissão Organizadora: João Soeiro de Carvalho, Luísa Cymbron e eu própria.

4/19/2005

La música desaparece del catálogo de grados

Las buenas noticias se acumulan. La música se reduce a la mitad en la LOE y, ahora, se rumorea con fundamento que va a desaparecer del catálogo de títulos universitarios de grado (denominación en España del primer ciclo «profesionalizante» que se prevé en el ámbito del Proceso de Bolonia).

La «impronta creadora» también se manifiesta en estas cosas: vamos a ser el único país de la UE que no reconoce que existan salidas profesionales relacionadas con la música y diferentes de la puramente artística (exceptuando Chipre, cuyo único departamento universitario de música es, de hecho, un conservatorio superior). Olé. Eso es personalidad y salero. Viva Operación Triunfo.

Tampoco está todavía clara, a estas alturas, la manera como, a partir de ahora, los Conservatorios Superiores se irán a relacionar con la Universidad. Todavía nos esperan, por lo tanto, más sorpresas.

Einstein, violinista amador

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Do seu primo, o reputado musicólogo Alfred Einstein (n. 1880; f. 1952), não encontrei nenhum retrato, mas posso recomendar algum livro.

4/18/2005

A questão da questão...

... da Casa da Música foi colocada no interessante plasticinina, cuja visita regular se recomenda.

Y luego se extrañan

Está disponible - aquí - el anuario SGAE sobre hábitos de consumo cultural en España.

En la sección sobre música clásica se incluye una relación de las respuestas dadas por los entrevistados cuando se les preguntaba las razones por las que no frecuentaban más conciertos y espectáculos de ópera. Con diversas variantes, la respuesta común es la ignorancia confesada: no sé, no entiendo, es difícil.

La opinión de los autores es que la solución de ese problema pasaría por la programación de obras más accesibles. No me parece que ese tipo de «palpites» - ahora me faltan las palabras en castellano, ¿cómo se diría eso en la lengua de Cervantes? - tengan lugar en un estudio de estas características. No obstante, puestos a analizar, también hubiera sido interesante que se hubieran acordado de la muy pobre formación musical que, a lo largo de generaciones, han recibido - y todavía reciben hoy en día - los españoles en la enseñanza obligatoria.

Los que pertenecen a mi generación - que constituyen ahora mismo una buena parte de los «consumidores» culturales en España - pueden contarlo. Me acuerdo todavía de las clases de música que me dio una profesora de latín en la única asignatura sobre esa materia que tuve a lo largo de todos mis estudios preuniversitarios (8 años de EGB, 3 de BUP y 1 de COU). La señora - que no sabía distinguir la clave de sol de la de fa - nos entretenía durante horas leyendo en voz alta el manual para indicarnos lo que teníamos que subrayar. Yo estudiaba entonces piano y me reía para mis adentros (aunque, francamente, los conocimientos de historia de la música de mis profesores del conservatorio tampoco eran mucho más profundos...) Es fácil imaginarse la idea con la que se quedaron mis compañeros de entonces, con catorce y quince años, de lo que daba de sí aquella extraña cosa de la música clásica.

Con la LOGSE, las cosas hubieran podido mejorar. Sin embargo, lo cierto es que, dentro de los establecimientos de enseñanza, la presión para que los mejores estudiantes NO escojan la opción música es enorme. Muchos de mis alumnos - profesores de música - me han contado episodios sorprendentes que revelan el generalizado desprecio hacia la música por parte de sus propios compañeros de profesión especializados en otras disciplinas. Ahora, con la LOE, los sueños que parecían realizables con la anterior ley se han esfumado por completo.

La «impronta creadora» de la sociedad española es alérgica a la música clásica porque eso es lo que se fomenta - activamente - en las escuelas. En cuanto a la música popular, como siempre, la innovación seguirá viniendo de otros países donde sí se toma la música en serio. Luego es sólo cuestión de inventarse una letrita con prosodia mínimamente ajustada (o ni siquiera eso) y a correr.

4/14/2005

Isto não é uma polémica

Era para ter tido com ele a polémica que era de esperar entre uma massenetiana e alguém que gosta desse piroso do Mascagni, mas afinal não foi possível ou, pelo menos, não foi possível por enquanto. Isto não significa que é agora que vamos ter uma polémica sobre outro assunto, claro está. É só que li o último post do Henrique a propósito da conferência de António Pinho Vargas desta semana (à qual não me foi possível asistir) e achei tão interessante que não resisti a fazer um comentário.

A primeira parte é óbvia: a actuação pública de Boulez é tão variada que se compreende que possa ser difícil apreciar positivamente tudo aquilo que ele faz. Uma personalidade aparentemente bastante autoritária também não ajuda muito a gostar dele. A questão é que, estando de acordo com muitas das coisas que o Henrique diz, ao mesmo tempo, e cada vez mais, não deixo de cultivar uma admiração por Boulez por causa do seu empenhamento, no século XX, numa ideia elitista e minoritária da música. Perdeu a aposta (até ele próprio se tornou numa espécie de marca, como a Mercedes-Benz: se é Boulez dirigir, é bom, investimento seguro, compra-se) e fez que se «perdesse» também muito dinheiro do erário público francês nos seus proyectos, mas...

Pelo caminho, todavia, também deixou umas quantas obras que só sendo muito tendencioso se podem desprezar (Le Marteau, as duas Dérives, Livre pour quatuor, Rituel...).

Contudo, no fundo, Boulez não me interessa demasiado, ou melhor, não me interessa gastar o meu tempo falando nele.

Mas sim que me interessa pensar nalgumas das coisas que o Henrique dizia, sobretudo isto: « Boulez é um gesto, um formalismo, uma necessidade de ser avant garde de uma arte que já não consegue ter guardas nem muito menos avançadas, porque a arte já não é um movimento em direcção a algo, a arte hoje não se rege por padrões lineares ou planares.»

A questão é que não sei quando é que a arte foi isto: «um movimento em direcção a algo». Na música, é certo, temos a infelicidade de ter de aguentar essa ideologia da teleologia infalível e do pensamento único. Está bastante estendida, mas, também, não sei se houve nunca nada comparável com o terramoto Wagner no resto das artes. Ninguém tem a culpa disso.

E mais outra coisa, o tal “divórcio” entre o público (ou uma parte dele) e o compositor (ou pelo menos alguns) e algumas obras já existia nos tempos de Mozart. Muitas notas, lhe disseram a ele. Ininteligível, diziam a Beethoven. Sensual e ilógico, diziam a Mahler. Nem sei a quantidade de imaginativos piropos que foi lhes dedicada a Schoenberg e a Berg. Mas atenção: com isto não estou a aceitar aquela ideia de que a história separará as águas e fará dos os últimos, os primeiros.

Só temos é de tentar avançar no labirinto escutando, não esperando encontrar nas obras a confirmação daquilo que pensamos que é o que devemos pensar sobre elas porque alguém com autoridade – ou lata, ou temperamento suficente – o disse. Agora, também não me parece justo confundir a falta de paciência de cada um com aquilo que uma obra propõe e, menos ainda, com o falhanço ou com sucesso do percurso do seu autor. Pensar nesses termos é cair na cilada de aceitar que a “história”, afinal, tem sempre razão. Ou, pior, entender a história como uma espécie de “Big Brogther” televisivo.

Há, porém, peças musicais más e acho que temos tudo o direito a não ter paciência para elas. Isto último aplica-se também às boas.

Bartók, Boulez, Grimaud

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Há dias que no Ópera e demais interesses se comentou o recente lançamento da Deutsche Grammophon com os concertos para piano de Bartók dirigidos por Boulez. Só hoje é que tive a oportunidade de escutar o CD.

Superlativo, nao há dúvida. Agora, se usarmos essa palavra para o conjunto, não sei como é que poderei distinguir o resultado, no terceiro concerto, da combinação de Boulez à frente da Sinfónica de Londres com Hélène Grimaud (na foto) ao piano.

Ouçam e contem depois se conseguiram ouvir o “Adagio religioso” sem paragens. É que eu tive de deter o leitor por um momento para conseguir respirar.

Grande Bartók.

4/13/2005

Bill Viola encena Wagner

A notícia (com link para a entrevista com o Bill Viola publicada no Le Monde) e o comentário estão no óptimo Ópera e demais interesses.

4/12/2005

Casa da Música

Iniciativa cidadã em defesa da área envolvente da Casa da Música. É só clicar aqui e subscrever a petição.

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Duas breves

O novo blogue sobre música de César Viana (bem vindo à blogosfera!) e a resposta a uma pergunta que eu própria me fiz num post escrito a propósito da Festa da Música: onde é que param as produtoras? Felizmente, há uma que pára aqui.

«Deja que suene la música»

El título de este post cita uno de los publicados por Enrique Dans el pasado jueves 7 de abril. La lectura se recomienda, aunque, en lo que se refiere a la música «clásica», me parece que convendría distinguir de forma más clara los derechos relativos a los mediadores de los derechos de autoría. Hay además un tipo de derechos, propios de los intérpretes, que todavía no han salido en esta batalla y que en la «clásica» son también importantes. Éstos son pormenores, o mejor, cuestiones que, de manera tangencial, el referido post me ha hecho considerar.

Además, también me ha recordado otro asunto interesante: ¿cómo se podrá caracterizar la escucha por la que estamos dispuestos a pagar en la era digital? ¿será que, hoy en día, «escuchamos»?

Pensándolo bien, parece significativo que las sociedades de autores naciesen en la segunda mitad del siglo XIX, el período en el que se generalizó el modelo de «escucha silenciosa» para la música, fundamentado en la idea romántica de que el artista/autor es un ser diferente del común de los mortales. No obstante, el origen de la primera sociedad de autores (la francesa SACEM, de 1851) es bastante ruidoso: el propósito de fundarla nació la noche en que dos compositores se negaron a pagar la cuenta de su consumición en un café-concerto cuyo fondo sonoro era música de su autoría. Curiosamente, uno de los argumentos actuales de los autores en la defensa de sus derechos es su rechazo a ver convertida su obra en mera mercancía.

Por cierto, mientras yo estaba en otras cosas, el Plan Anti-Piratería de la ministra Carmen Calvo fue aprobado. Su lectura, este fin de semana, me provocó un malestar, explicado después por David Bravo en su blog, Fílmica, y por Jaime Muñoz (éste incluye el texto del plan, en PDF, y links para otros comentarios).

Un detalle que ha pasado inadvertido: la referencia a la impronta creadora por la que se «caracteriza» la sociedad española como justificación del plan. Otra manera de decir «o que é nacional é bom».

4/11/2005

Dois artigos de Nicholas Cook

Ambos publicados em Music Theory Online e relacionados com a musicologia da «performance». Um muito recente, publicado no último número monográfico da revista. E outro, de 2001, talvez mais apelativo pelo seu carácter de quase «manifesto».

O livro de Esteban Buch sobre a "Nona Sinfonia"

Há dias que tenho a intenção de escrever aqui alguma coisa a propósito do livro de Esteban Buch sobre a nona sinfonia recentemente lançado pela Terramar. O Sérgio Azevedo - bem vindo seja a este blogue que é o seu :-) - perguntou a minha opinião sobre este estudo em comentário ao post sobre a “Nona de Furtwängler” gravada no dia do aniversário de Hitler em 1942, mas acabei por não responder porque pretendia dedicar um pouco de tempo ao assunto: o melhor é inimigo do óptimo…

Li o livro há três anos, quando saiu em inglês, e na altura achei fascinante. Buch é um daqueles autores que consegue o difícil equilíbrio entre a exaustividade académica e a agilidade do estilo. Em cada página se revela a sua impressionante imaginação, fazendo com que todas as fontes que utiliza se tornem pertinentes e reveladoras, inclusive (pelo menos assim me parece) para leitores pouco treinados na leitura de obras de temática musicológica.

No que diz respeito ao século XX, e para além da análise dos avatares da obra a partir da ascensão do nazismo até à queda do muro de Berlim, Esteban Buch analisa em detalhe as comemorações do centenário da morte de Beethoven, ocorridas em Viena em 1927. Este capítulo é, talvez, o mais interessante e inovador do livro porque, apesar de ser um episódio aparentemente marginal, pode ser considerado o campo no qual Beethoven “perde”, nem que seja transitoriamente, a sua assimilação por parte do modernismo. O principal organizador dessas comemorações foi Guido Adler, um dos fundadores da musicologia moderna, amigo de Schoenberg e professor de Anton Webern na Universidade de Viena.

O capítulo é, entre outras coisas, interessante porque é aquele que permite estabelecer ligações com a recepção portuguesa de Beethoven, a partir da presença no mesmo, como delegado, do pianista e compositor José Viana da Mota. Este facto é apenas referido de forma implícita, ao qualificar de menores e de conservadores os compositores que intervieram no programa. Faz pensar no significado de que, nesse foro, Viana da Mota se referisse às, na altura, mais recentes obras de Freitas Branco nos seguintes termos: “Só hoje começa a aparecer certa tendência para um neoclassicismo Beethoveniano nas obras de Luís de Freitas Branco. Acentua ele a tendência da geração actual contrária ao impressionismo e orientalismo inorgânico e enervante a favor do espírito ocidental mais severo de Beethoven. Para criar obras organicamente construídas, de grandes linhas, acha ele necessário regressar à forma Beethoveniana como base, conquanto modernize a expressão. As suas sinfonias seguem exactamente o plano Beethoveniano admitindo a relação dos temas entre si como deduzidos por analogia e por contraste.”

Na mesma conferência, Viena da Mota afirma ter sido ele o primeiro a escrever Portugal uma sinfonia em que se “empregou entre nós, rigorosamente, a forma Beethoveniana”: depois, dedicou-se ao “género nacionalista”.

O legado do culto beethoveniano passou directamente para Fernando Lopes-Graça, pelo que devemos tentar olhar (na perspectiva da história da música em Portugal, claro está: esta discussão não deve ter grande interesse para a composição hoje) para além da apreensão que produz a antiquada retórica de Viana da Mota patente neste excerto. Lopes-Graça, porém, foi bastante crítico em relação à utilização da “grande tradição musical germânica” como propaganda política através das digressões europeias de maestros e orquestras alemãs durante o nazismo (por exemplo, a da Filarmónica de Berlim a Lisboa nos primeiros anos da década de 40).