1/15/2007

Blockbuster opera

Começo a pensar que estou com um sentido de humor péssimo ou, então, críptico (o que vem dar ao mesmo, dito seja de passagem). O meu post anterior não pretendia realmente começar nenhuma polémica. Daí o uso do termo “polemicar”, uma citação de Lopes-Graça que se referia às suas discussões jornalísticas com Rui Coelho com o termo “polemicadas”. E, desculpem a digressão, também não queria defender Saramago, o qual, para além de se defender muito bem a si próprio, não se conta entre as minhas preferências, apenas por mera incompatibilidade. Explico-me: eu gosto de Michaux, de Cortázar e de Capote o que é, de todo, inconciliável com a prosa do escritor luso.

O que andava a tentar evidenciar era a partilha de tipos de argumentos ou, menos pretensiosamente, de temas nas recepções mais ou menos críticas, e por vezes antagónicas, a duas óperas recentes. A primeira viu-se em Lisboa e em Milão, enquanto a segunda apenas foi apresentada em Nova Iorque. Esta última - The First Emperor, com música de Tan Dun - foi transmitida através da rádio no sábado passado.

A impressão que ficou foi a evidente: a intenção do compositor de fundir o drama lírico com referências à imagem sonora da China e uma produção típica da antiga grand opéra, historicista e servida por meios materiais estonteantes (10 anos de trabalho e custos que se elevam aos 2 milhões de dólares). A ópera colocou-se, portanto, na órbita do cinema, oferecendo inclusivamente uma estrela da craveira de Plácido Domingo como cabeça de cartaz. Não é, de todo, um fenómeno novo: ópera e cinema têm-se olhado mutuamente desde sempre.

Hoje em dia, o desafio deveria resultar ainda mais estimulante, perante vídeos como os que se seguem, criados com ferramentas que fazem de quem as usa uma espécie de deus sem limites.