1/30/2008

Beleza, pertinência, ética

A única pequena indignação que me provocou Das Märchen não tem a ver directamente com a obra. Derivou-se do facto do seu orçamento - no mínimo, um milhão de euros – ser equivalente ao de dez edições da Festa da Música! A comparação é injusta, eu sei, mas fi-la e irritou-me. Entretanto, lá estaremos, a partir de amanhã, em Nantes, escutando Schubert... Obrigada, Antena 2.

De resto, a certidão de óbito do modernismo - desculpem que não entre em discussões historiográficas ou conceituais: fica para outro dia - foi expedida há décadas. Por isso, pelo menos em termos teóricos, não percebo o espanto provocado por esta obra de Emmanuel Nunes.

As obras que, desde então, foram estreadas reclamando esta herança cumpriram o seu papel institucional de luminárias de Ocidente e de emblemas do seu desenvolvimento. Para a nossa sociedade opulenta, este ascético luxo não supunha um gasto incomportável, e sempre dava alguns trocos em benefícios simbólicos. As ditas obras negaram o corpo, preservaram a miragem da superioridade da razão alheia a qualquer critério de utilidade e, como era de esperar, nunca interessaram a mais do que a uma minoria hiper-instruída. Isto faz parte do seu código genético.

Ou seja, o facto de ontem terem permanecido umas 150 pessoas no São Carlos até ao fim da ópera (um par delas para a apuparem, dito seja em honra do peculiar sentido do humor que demonstraram ter), ou os números divulgados a propósito da parca audiência que assistiu às retransmissões realizadas para diversas salas do país (das 11.000 esperadas, apenas umas centenas) são perfeitamente dispensáveis, sobretudo para quem aceita as regras de um jogo onde a realidade, como se sabe, é um detalhe sem importância. Paradoxalmente, e na mesma lógica, é oca (e transparece uma certa ingenuidade na concepção dos processos através dos quais se escreve, difunde e conforma a história) a hegeliana invocação da posteridade como a juíza imparcial que irá pôr no seu merecido lugar essas obras – Das Märchen em particular – que agora não apreciamos porque não percebemos. Há quem acredite no céu, ou, por outras palavras, no seu ingresso no panteão dos escolhidos, ao lado de Bach e de Beethoven.

Lá está: beleza, senhores, o que queremos é beleza. A que aprendemos a apreciar na música de Bach e de Beethoven, ou outra a rebours, bizarra e suicidária, enquadrada, até, numa linhagem artística já exausta, moribunda e anacrónica. A obra de Nunes pertence a este mundo e eu tenho admirado e desfrutado de uma boa parte dela. Afinal, da nossa época também faz parte a subcultura própria dos consumidores de música contemporânea modernista…

É certo que, no projecto inicial de Das Märchen, de meados da década de 90, Nunes explicou, com decisão, a sua própria concepção dramatúrgica da obra e que qualquer relação das suas ideias com o que vimos/escutámos no São Carlos, ou seja, com esta montagem específica é mero acaso. No entanto, a causa do falhanço deste espectáculo não pode ser apenas atribuída às discrepâncias ou aos desequilíbrios entre o que se viu e o que se escutou. Posso referir, como contra-exemplo, Caminho ao Céu, de Carlos Marecos, produzida em 2003 pela Culturgest: a beleza da partitura sobreviveu, na que foi a minha primeira e, por enquanto, única audição da obra, a uma montagem com a qual eu não senti a mais mínima empatia.

Já agora, também queremos pertinência. Aconteceu-me, logo no início da escuta de Das Märchen, ver-me transportada ao Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Coincido com Carlos, do Ideias Soltas: a música de Nunes, nesse espaço, é pertinente, integra-se num projecto coerente – talvez ultrapassado quando julgado a partir de determinadas premissas, mas coerente. No São Carlos, Nunes e a sua música ficam descontextualizados e, portanto, desprovidos de qualquer poder, quer reflexivo, quer encantatório. E não lhe conferirão, por certo, sentido os utópicos clichés de matriz hegeliana transformados em princípios orientadores da política cultural, evangelicamente amplificados em frases como a seguinte: [produzir esta ópera é] "como plantar uma semente, cujo resultado não se vê logo a seguir", pronunciada por um dos responsáveis pela Casa da Música.

Tão pouco há nisto nenhuma originalidade. Augusto M. Seabra tinha-o escrito no Letra de Forma: “Não vejo “promessa” ou “aurora” alguma na obra [Das Märchen], tão só os fogos-fátuos de uma ópera enquanto manifestação do poder.” Afinal, falamos de política e também de ética: onde se inscreve, nos tempos que correm, o programa de "preservação da autonomia do simbólico" defendido por Nunes e do qual esta obra acabou por ser, talvez involuntariamente, um sarcástico manifesto?

10/24/2007

Forum de discussão sobre a educação artista em Portugal

Carlos Araújo Alves, do Ideias Soltas, teve a generosa ideia de criar um forum dedicado à discussão de temas relacionados com a educação artística. Chama-se precisamente assim: Educação Artística FORUM. Propõe-se, nas palavras do próprio Carlos:

numa atitude de incentivar uma cidadania activa e participada, estimular um
debate público e aberto sobre os rumos da Educação Artística em Portugal. Num
momento em que foi publicado um "Roteiro para a Educação Artística", um
"Relatório de Avaliação do Ensino Artístico" e se leva a cabo uma "Conferência
Nacional de Educação Artística", é indispensável a existência de um espaço de
opinião livre e independente, onde os mais directamente envolvidos - os
pedagogos da área, os artistas, os pais, os alunos, os directores pedagógicos de
escolas de educação artística eseus gestores - possam ter voz e ser ouvidos,
coisa que até ao momento parece ainda não ter sido possível.

Talvez seja apenas do interesse de uma minoria, mas acho que isso nem sequer deveria ser tomado em consideração. Pela minha parte, eu gostava muito de poder ler nesse forum opiniões de agentes directamente implicados com a educação artística, muito particularmente com a musical. Vamos ver se tenho essa sorte.

10/23/2007

Dívida

O Paulo foi muito simpático e desafiou-me, há três meses (ups!), a contar no meu blog as minhas últimas cinco leituras. Vou mencionar unicamente aquelas que terminei mesmo agora o que estou a ler principalmente por (ou com) prazer. Ou seja, ando igualmente entretida com outras leituras de escravatura (para as aulas, para notas de programa e para artigos) que, julgo eu, não vale a pena referir agora.

Les Antimodernes, de Antoine Compagnon (Éditions Gallimard, 2005). Há uma boa tradução para castelhano na editora El Acantilado, deste ano. Imagino que Compagnon terá sido atacado pela direita e pela esquerda por causa deste livro. Eu, que já tinha lido Le démon de la théorie, de 1998, e que tinha apenas folheado o seu impressionante estudo sobre a citação, fiquei fascinada com este ensaio. Consegue dar a volta às nossas idées/lectures reçues sobre el modernismo. E está maravilhosamente bem escrito.

Franz Liszt. The Weimar Years, 1848-1861, de Alan Walker. O livro é de 1989 e já o tinha consultado como leitura de escravatura. Foi aliás por isso, por causa de umas notas para um concerto da Orquestra Gulbenkian em que foi tocada a Sinfonia Fausto, que voltei a usá-lo. Não sei o que aconteceu: desta vez, o estilo singelo e entusiasmado de Alan Walker conseguiu absorver a minha atenção e acabei devorando-o inteirinho. Agora pretendo começar Reflections on Liszt, de 2005.

Metamorfosis, de Ovidio, na tradução para castelhano da editora Cátedra. Confesso que nunca tinha lido de fio a pavio e dá jeito para muitas situações, particularmente, quando se gosta de visitar galerias de arte antiga com uma criancinha de sete anos...

Cien poemas, de John Donne, edição bilingue e tradução de Carlos Pujol, publicados pela Pre-Textos em 2003. Este acompanha-me desde Setembro. Apesar de cantar muitas vezes nos seus versos à Primavera, é uma boa leitura de Outono.

Parzival, de Wolfram von Eschenbach, editado pela Biblioteca Medieval Siruela em 1999. Por enquanto, só fala em complementos de moda (capas de seda verde e coisas no género) e em amores... Parece a Marie Claire. Estes wagnerianos deveriam rever com cuidado as suas fontes.

Já agora, Paulo, eu gostava de saber o que achaste de Todas las almas, de Javier Marías, autor que, como sabes, eu andei a ler há dois ou três anos.

10/22/2007

Kempff inédito



El pianista Wilhelm Kempff, que se dedicó también a la composición, pertenece a esa generación de intérpretes que creía en la verdad de la música y que despreciaba serenamente el mero efecto pirotécnico como medio para impresionar a la audiencia. Ésos son los principios en los que se fundamenta su raro talento para poner en evidencia el crecimiento, formal y sonoro, de las obras que formaron parte de su repertorio. Kempff conseguía esto sin explosiones retóricas, con una sabia dosificación de la tensión y una paleta maravillosamente aterciopelada de colores y ataques que ponen en relieve todos los detalles significativos para el entendimiento de cada obra.

En su caso, además, la contención no está reñida con la emoción. Todos los cortes de este doble CD, recientemente editado por la etiqueta muniquesa Orfeo a partir de grabaciones inéditas realizadas en la Radio de Colonia hacia 1960, lo prueban, desde los primeros compases de la Fantasía op. 17 de Schumann. Si tienen la oportunidad de escucharlo, tal vez experimenten el mismo estremecimiento que a mí causó la versión aquí incluida del Intermezzo en mi bemol menor de Brahms.

10/20/2007

Nuno Nabais, meu herói

Ao contrário do Henrique, que relata no seu último post um concerto desastroso da OSP dirigido por José Cura, eu regresso à blogosfera movida pelo entusiasmo e pela admiração.

Ontem, como tinha esquecido em Espanha os meus vestidos de gala, decidi não passar pelo São Carlos (o João diz que também não foi por outras razões que, por acaso, partilho). Fui, com calças de ganga, para a Fábrica Braço de Prata escutar a música que tinham para oferecer quatro músicos (com M grande): José Parrinha (Clarinetes), Nuno Rebelo (Guitarra), Rodrigo Pinheiro (Piano) e Miguel Pereira (Contrabaixo). Excelente, como era de esperar.

Porém, o que me emocionou vivamente foi passear por um espaço que tinha tido a oportunidade de visitar cinco meses atrás, guiada por Nuno Nabais. Na altura, só se podia adivinhar com um grande esforço de imaginação aquilo que o Nuno queria para aquelas salas abandonadas. Hoje, a realidade é um local mágico, efervescente de criatividade e de boa disposição.

Vão. Usem, abusem. Desfrutem. Façam parte do século XXI.

Chamei-lhe superhomem, uma piada sem piada para elogiar alguém é um grande especialista em Nietzsche. O certo é que, sem deixar de ser homem, ontem se tornou num dos meus heróis.

7/27/2007

Manifesto da Meloteca

O meu post de despedida, antes de ir para férias, era o anterior. Mas fui agora ver o hotmail do blog, que não via há tempos, e encontrei esta mensagem endereçada por António José Ferreira, o responsável pela magnifica Meloteca. O conteúdo é bem menos agradável do que o do podcast do Carlos, mas julgo que será, infelizmente, de interesse para os internautas melómanos que por aqui passam.

Fica aqui, reproduzido na íntegra:

MELOTECA EXCLUÍDA DE APOIOS

1. Em Setembro de 2003, foi lançada a Meloteca, sem pompa nem apoios. O projecto cresceu, foi reconhecido o seu interesse cultural, e a gestão do projecto tornou-se impossível de realizar cabalmente sem apoios institucionais. Muita informação tem ficado por divulgar por manifesta falta de tempo. Por essa razão, o Projecto foi em devido tempo candidatado aos apoios pontuais 2007 do Iartes.

2. A Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular reconheceu "o manifesto interesse deste projecto enquanto suporte ao desenvolvimento das competências estéticas e artísticas", mas não o apoiou; o chefe da Casa Civil do Presidente da República considera que a Meloteca tem interesse mas não cumpre os critérios para obter o simbólico Alto Patrocínio do Senhor Presidente; a Fundação para a Computação Científica Nacional reconheceu ao Projecto "o maior interesse" e uma "qualidade notável", mas também não pôde apoiá-lo; o Instituto Camões considerou que se trata de uma iniciativa de "grande interesse no contexto da divulgação da música portuguesa", mas referiu que não se enquadra na sua missão fundamental.

3. Como a Meloteca e a minha vida profissional me ocupam quase todo o tempo, e eu não sabia quando seriam publicados os resultados, só em finais de Junho fui ver os resultados das candidaturas a apoios do Iartes. Como o projecto tem crescido de forma sustentada e é reconhecido por numerosos músicos de grande mérito, espantado fiquei quando vi que a Meloteca tinha sido pura e simplesmente excluída. Como dos motivos de exclusão do Manual de Procedimentos nenhum era aplicável, pedi uma explicação. Motivo da exclusão: apoios cumulativos. Que apoios cumulativos?

4. A Meloteca foi apoiada em 2006 com 1500 (!) euros pela Delegação Norte do Ministério da Cultura para o biénio 2006/2007. Todavia, 1500 euros é um apoio insignificante para os custos com ferramentas (software), cursos de Informática, computador e sua manutenção, electricidade, banda larga e servidor... No país que tanto investe na inovação, não há um sequer possibilidade de obter um computador portátil nem oportunidades para projectos deste tipo. Quem já têm formação qualificada e quer fazer melhor neste campo de novas tecnologias não tem oportunidades para melhor promover a cultura.

5. Há que referir que os 1500 euros são relativos ao biénio 2006/2007. Na prática, ter recebido 150 contos para o ano de 2007 impediu simplesmente que a candidatura fosse apreciada. Se a lei é essa, é uma lei cega e injusta, colocando em pé de igualdade apoios de 750 €, 7500 ou 20000, por exemplo. Obviamente, se o motivo aparecesse com clareza entre os motivos de exclusão, não teria perdido dias e dias a preparar a candidatura. No futuro, se candidatar a Meloteca ao apoio do MCNorte e obtiver um apoio, mesmo que simbólico, já não posso concorrer aos apoios do Iartes; mas se não concorrer, é ainda mais provável não receber qualquer apoio, nem de um lado nem de outro.

6. Há um colaborador da Meloteca que está neste momento a trabalhar voluntária e gratuitamente cerca de 3 horas por dia e a fazer viagens que paga do seu bolso. Sem apoios, como posso promover a formação permanente, técnica e específica de quem colabora no projecto e dar-lhe alguma compensação? Além das minhas ocupações profissionais, tenho dedicado ao projecto cerca de 1000 horas anuais. Não passarei a aplicar essas horas em trabalho remunerado nem deixarei de lado a Meloteca, porque ela é, para mim, mais do que uma profissão.

7. Enquanto se esbanja tanto dinheiro, se pagam milhões a gestores públicos e se indemnizam quando são substituídos sabe-se lá por que motivo, a cultura e a música continuam a alimentar-se das migalhas de banquete.

8. A Meloteca, livre e independente de subsídios, continuará a trabalhar pela qualidade da democracia no âmbito da música, a contribuir para que os músicos portugueses tenham mais oportunidades, a manifestar efectivo apreço pelas regiões de Portugal, a promover um pensamento musical português. Sem poder cumprir o projecto apresentado ao Iartes, a Meloteca continuará, apesar de tudo, a prestar um serviço público e a colmatar lacunas na Música, na Cultura e na Educação.

António José Ferreira

Castigo às avessas

Por causa do tau-tau que eu dei no Edelmiro, o Carlos castigou-me com este podcast que se recomenda: maravilhoso sempre e perfeito para entrar, escutando-o, no período de férias. Isso é, precisamente, o que eu vou fazer daqui a umas horas.

7/26/2007

Corigliano rocks



Creo que ya conté en el blog que el motivo de mi ida a Santander fue entrevistar a John Corigliano. El artículo ha salido hoy en Mundo Clásico. Voy a tener la oportunidad de conversar más despacio con él este verano, para hablar, entre otras cosas, del encargo que el Servicio de Música de la Fundación Calouste Gulbenkian le ha hecho, juntamente con otras instituciones europeas y americanas, para la próxima temporada. Una suerte y un verdadero placer.

7/20/2007

La columna de la derecha

Sigue tan caótica-alfabética como hace unas semanas. En realidad, un poco más, porque acabo de incluir otras tres entradas: una portuguesa, la del útil blog del Coro Ricercare, otra luso-neerlandesa, la del blog del excelente barítono Armando Possante (distinto apreciador de música disco), y la de un tercero, escrito desde Bogotá. Se trata del interesante blog de Mauricio Peña.

7/19/2007

¿Por qué le llaman gusto, cuando quieren decir moral?

Estaba todavía en Santander cuando leí, en el ABC, la noticia de que cincuenta abonados del Teatro Real habían enviado una carta a los patrocinadores y benefactores del coliseo madrileño protestando por las puestas en escena que “hieren la sensibilidad del público”, particularmente las concebidas por Calixto Bieito y Carlos Amat, respectivamente, para Wozzeck, de Berg, y El viaje a Simorgh, de Sánchez Verdú.

Así, sobre la puesta en escena de Bieito, afirman


que «denigra de forma explícita a la mujer mediante la doble violación de su supuesto cadáver», y se «insulta a la dignidad humana» mediante la retirada, en fase de ahogo terminal, de la mascarilla que da vida a un niño, ayudándole a morir.
Y, a propósito de El Viaje a Simorgh, siempre según el ABC, los firmantes de la carta destacan


«la pornografía que «orienta al progreso» la sensibilidad del público, con sexo explícito entre dos hombres». También se refieren a la «degradación y ridiculización de forma vil e inaceptable de algunos personajes de la Iglesia». Lo que constituye, en opinión de los firmantes, «una clara lesión a los derechos y valores humanos que todos debemos preservar».

Me encanta la expresión “pornografía que orienta al progreso”. Se me pasó la semana pasada. He reparado en ella hoy, leyendo El País Digital, donde hay varias piezas que informan sobre el eco que la carta está teniendo en el medio operístico español.

Ni siquiera a pesar de que critiqué negativamente la puesta en escena de Bieito les voy a alabar el gusto. Mucho menos en lo que se refiere a la de Amat, que sí me gustó.

La carta, retrospectivamente, me ha confirmado la certeza que tuve en su momento de que las críticas que Sánchez Verdú padeció habían sido una respuesta a la valentía – o ingenuidad o inconsciencia, me da igual– de introducir en el Real una crítica tan clara a cualquier forma de fanatismo e intolerancia. Por ejemplo, cuando yo asistí, fueron bastantes las personas que se levantaron ostensivamente en una de las escenas más impresionantes de la obra, cuando se oye, amplificada y circulando amenazadora por la sala, la terrible frase “Dios está con nosotros”. Por eso, por esta reacción que interpreté, iluminada retrospectivamente a la luz del contenido de esta carta, de forma correcta, me sorprendió un poco que, en general, se pasase de puntillas por encima del desafío principal lanzado por Verdú que era, visto de otra forma, un elogio a la libertad individual, al viaje interior.

Curiosamente, esas mismas personas habían soportado ascéticamente la tal escena de pornografía orientada al progreso con la que se inicia la obra. Tal vez porque se sintieron aliviados al ver cómo la Muerte se llevaba a algunos de los pecadores reunidos en el prostíbulo donde se localiza. Lástima que no permanecieran en sus butacas hasta el final: supongo que se hubieran quedado satisfechos al comprobar que el personaje de la Muerte es el único que sobrevive.

En fin, que la cosa no pasaría de un chiste si la continuación de la carta no fuera ésta:
A continuación, solicitan a todos los patrocinadores y benefactores que «exijan» a la dirección del Real información completa sobre las representaciones para evitar a los abonados y aficionados «inserciones imprevistas que no enriquecen sino degradan la calidad de las obras y dejan en entredicho el buen nombre de su empresa».
Aunque no me entiendan mal. Estoy completamente de acuerdo con ellos, tal como lo estoy con Anna Russell: "you can do anything so long as you sing it...". La belleza de la (gran) ópera está ahí.

7/18/2007

Dos libros

uno que he detestado



y otro que estoy devorando con placer



y que hubiera debido reproducir el retrato de su autora en la portada



linda

Con el pretexto de que es verano, y como además el libro de Alma es sobradamente conocido, no me voy a explayar comentándolos.

Aunque tal vez se justifique decir algo sobre la novelita de Echenoz. El problema es que sólo se me ocurren adjetivos poco lisonjeros. Imaginen una docena de anécdotas conocidas relativas a los últimos diez años de vida de Ravel, pegadas las unas a las otras, intercaladas con descripciones de objetos y espacios que pretenden ser épatantes por su inanidad, y presentadas con un estilo ácido y descarnado - esto último me da la impresión que agravado por la traducción al castellano - y que provoca una progresiva irritación porque se toma en serio su intrascendencia. O a lo mejor resulta que tiene sentido del humor en exceso y yo, que ando muy sentimental, no me he enterado. De hecho, el libro ha sido bastante elogiado.

Por cierto, cuando Echenoz menciona el estreno del Concierto en Sol no refiere a Pedro de Freitas Branco. Casi mejor.

7/17/2007

Lisboa retalhada

É claro que isto tem uma explicação: a principal consequência da absurda política urbanistica das últimas décadas foi retalhar a sociedade lisboeta, afastando as pessoas umas das outras e remetendo cada qual para a sua vidinha privada num dia a dia em que os habitantes raramente têm oportunidade de se encontrarem uns com os outros fora do centro comercial ou do hipermercado. O sentimento do viver colectivo e do interesse comum perdem-se numa cidade assim, em que o espaço público primeiro se degrada, e depois quase desaparece.



Lido no sempre excelente Blogoexisto. Fez-me pensar nas salas de concerto lisboetas, tantas vezes à espera de mais público.

7/15/2007

Las virtudes de Pandora, que ahora se muda a Matosinhos

¡Tanto tiempo! El verano, la burocracia universitaria y la provincia combinados dan como resultado una especie de torpor más o menos bien dispuesto, incompatible con el mantenimiento regular de un blog. Ésa es la explicación.

En medio de esa calma, han ocurrido algunas cosas divertidas y otras agradables, claro. Está en la segunda categoría el viaje que he hecho esta semana a Santander. Fui allí para entrevistar a John Corigliano, compositor invitado por la organización del Encuentro y Academia de Música de Santander, un proyecto promovido por la Fundación Albéniz sobre el que valdría la pena escribir un post. La visita estuvo llena de sorpresas agradables. Cuando llegué el pasado lunes, primero, encontré providencialmente un cuarto con vista sobre la playa del Sardinero. Después, me encontré, también por casualidad, con un cuarteto formado hace cuatro años en la Academia Nacional Superior de Orquesta de Lisboa tocando maravillosamente dos de mis obras preferidas.

El Cuarteto Pandora, antes Tacet y, a partir de octubre, Cuarteto de Matosinhos, interpretó la segunda parte de uno de los programas del Encuentro. Tocaron la op. 5, de Webern, y el op. 13, de Mendelssohn. Los había escuchado en 2005, cuando eran todavía Tacet y acababan de ganar el Premio Jóvenes Músicos de la RDP, y me parecieron buenísimos. Ahora, después de un año de durísimo trabajo en el Instituto Internacional de Música de Cámara de Madrid, creado en 2006 por la misma Fundación Albéniz y que funciona en paralelo a la Escuela Superior de Música Reina Sofía, se han convertido en un verdadero cuarteto, con un sonido puro, esmaltado, muy contenidos expresivamente y con una transparencia de textura y formal increíble.

Según me contó Victor Vieira, el primer violín (fantástico, alumno de Aníbal Lima y Gerardo Ribeiro) el cuarteto se va a instalar en Matosinhos. Al menos este próximo año, no obstante, tienen la intención de continuar a trabajar con el que ha sido su profesor en el Instituto, el excelente violinista y pedagogo Rainer Schmidt.

Es un poco tonto que la Câmara les obligue a cambiar el nombre por el de Cuarteto de Matosinhos (por supuesto, no resistí, y tuve que preguntar si también les iban a obligar a salir al escenario vistiendo una camiseta con el escudo municipal...) Aparte de eso, que no es muy afortunado desde el punto de vista del marketing del grupo, me parece magnífico que la Câmara Municipal de Matosinhos haya lanzado este proyecto y que la elección del grupo haya sido realizada por concurso. Esto último lo sé porque, también casualmente, unos días después de conversar con Víctor, uno de los miembros del tribunal me habló maravillosamente sobre ellos y sobre la prueba que realizaron.

Sólo espero que, por muy municipales que vayan a ser a partir de octubre, sean capaces de pensar y actuar, como grupo, por así decirlo, a escala planetaria. Por cierto, aunque no creo que visiten este blog, ¿a qué esperáis para crear la página web del cuarteto?

A seguir con mucha atención, incluso aunque no tengamos más remedio que llamarles en el futuro Cuarteto de Matosinhos.

6/21/2007

De Singapur a Alicante, pasando por Escocia

El Festival de Música de Alicante incluye en la programación de este año una coproducción del Theatre Cryptic y el T’ang Quartet. A partir de obras de Kevin Volans, Franghiz Ali-Zadeh, Rolf Wallin y Joby Talbot, Cathie Boyd, directora artística del Theatre Cryptic, y el T’ang Quartet, cruzando los límites de diferentes artes performativas, han concebido una especie de representación teatral de las piezas musicales elegidas. "Optical Identity" fue estrenado hace unos días en el Festival de Singapur y será presentado el próximo mes de agosto en el de Edimburgo.

Pasen y vean. O, mejor, pasen y escuchen. Escuchen los cuerpos de los músicos del T’ang Quartet y vean la música de Franghiz Ali-Zadeh que ellos interpretan:

Atalhos

Conforme pode ler-se aqui, esta Primavera, Pedro Carneiro, Teresa Simas e Alexandre Dias decidiram fundar a Orquestra de Câmara Portuguesa. As audições estão actualmente a decorrer e o seu primeiro concerto tem data marcada para o próximo dia 13 de Setembro, no CCB, sob a direcção de Pedro Carneiro.

O nome surpreendeu-me: não conhecia esta faceta da sua personalidade artística, que muito admiro, e também não a vejo reflectida na sua biografia oficial. Mas adiante.

Actualmente há, que eu me lembre, três orquestras profissionais sem casa própria em Lisboa: a Sinfónica Portuguesa, a Metropolitana e a Sinfonietta de Lisboa, para além da Sinfónica Juvenil, da Académica da Metropolitana e da Orquestra Jovem do Conservatório Nacional. Não acham um pouco estranha a ideia de criar, do zero, mais uma, promovida aliás pela única casa decente disponível em Lisboa para acolher um agrupamento deste tipo? Será tão complicado falarem, negociarem, chegarem a acordos as instituições já existentes? Esta é, obviamente, uma pergunta retórica: é, de facto, muito complicado, mas tenho o preconceito conservador de que essa é a única via sensata para criar um tecido cultural estável, sem atalhos e protegido de veleidades senhoriais.

Mas, se calhar, digo isto por causa desta época do ano, em que já começo a ver as coisas iluminadas pela agressiva e indiscreta luz do sol estival. Bem pensado, talvez chegou o momento de eu também fazer uma proposta ao CCB. Não sei ainda qual, mas para já, tal como a de Pedro Carneiro, prometo que será ambiciosa.

6/20/2007

Mais sobre o ensino artístico na perspectiva do utente

Agora ando bastante entretida com o trabalho, mas nas pausas para o café lá vou visitando os blogs dos outros: por exemplo, o Ideias Soltas, através do qual regressei ao Insustentável. Ali, o Rogério, num post a propósito da reforma do ensino artístico, narra, na primeira pessoa um recente episódio ilustrativo da sua experiência como utente.